Entre o Finito e o Infinito
Coleção Escola de Lógica Matemática
JOÃO CARLOS MOREIRA
Doutor em Matemática
Universidade Federal de Uberlândia
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Imagine-se caminhando pela praia em uma manhã ensolarada, observando os grãos de areia que se estendem até onde a vista alcança. Quantos grãos existem ali? Milhões? Bilhões? Agora erga os olhos para o céu noturno e contemple as estrelas. Quantas delas brilham no universo? Em ambos os casos, lidamos com quantidades tão vastas que parecem infinitas para nossa percepção humana. Mas será que existe algo verdadeiramente infinito? E se existir, todos os infinitos são iguais? Esta jornada pelo mundo da Hipótese do Contínuo nos levará ao coração de um dos maiores mistérios da matemática, uma questão tão profunda que desafiou as mentes mais brilhantes por mais de um século.
Desde os primórdios da civilização, o conceito de infinito tem fascinado e perturbado a humanidade. Os antigos gregos já debatiam sobre sua natureza. Zenão de Eleia criou paradoxos que questionavam nossa compreensão do espaço e do tempo infinitamente divisíveis. Aristóteles distinguia entre o infinito potencial — algo que pode crescer sem limites — e o infinito atual — uma totalidade completa e infinita. Durante séculos, matemáticos evitaram o infinito atual, considerando-o perigoso e paradoxal.
Para compreender a Hipótese do Contínuo, precisamos primeiro entender o que distingue conjuntos finitos de infinitos. Um conjunto finito tem um número específico de elementos que podemos contar: as letras do alfabeto, os dias da semana, os planetas do sistema solar. Já um conjunto infinito continua indefinidamente. Os números naturais formam o exemplo mais básico: 1, 2, 3, 4, ... sempre podemos adicionar mais um.
Galileu Galilei percebeu algo extraordinário sobre os infinitos. Considere os números naturais e seus quadrados. Intuitivamente, há mais números naturais que quadrados perfeitos, pois nem todo natural é um quadrado. Porém, podemos estabelecer uma correspondência perfeita: 1↔1, 2↔4, 3↔9, 4↔16, e assim por diante. Cada natural tem seu quadrado único, e cada quadrado tem sua raiz única. Galileu concluiu que conceitos como "maior" ou "menor" não se aplicam ao infinito da mesma forma que ao finito.
No século XIX, o desenvolvimento da análise matemática tornou urgente uma compreensão rigorosa do infinito. O cálculo de Newton e Leibniz havia sido construído sobre fundamentos intuitivos envolvendo quantidades "infinitamente pequenas". Matemáticos como Cauchy e Weierstrass trabalharam para estabelecer bases sólidas, mas foi Georg Cantor quem revolucionou nossa compreensão do infinito, criando a teoria dos conjuntos e descobrindo que existem diferentes tamanhos de infinito.
Embora o infinito pareça abstrato, ele permeia nossa vida diária de formas sutis. Quando dividimos um segmento ao meio repetidamente, teoricamente podemos continuar para sempre. Quando olhamos dois espelhos paralelos, vemos reflexões que parecem continuar infinitamente. Na era digital, lidamos com números irracionais como π, que têm infinitas casas decimais sem padrão repetitivo. Compreender o infinito não é apenas um exercício intelectual — é fundamental para tecnologias que usamos diariamente.
A Hipótese do Contínuo surge quando tentamos responder uma pergunta aparentemente simples: existe algum infinito entre o tamanho dos números naturais e o tamanho dos números reais? Esta questão, formulada por Cantor em 1878, revelou-se tão profunda que mudou nossa compreensão sobre a natureza da matemática e da verdade. Para apreciar sua complexidade, precisamos primeiro entender a revolução que Cantor iniciou na teoria dos conjuntos.
Este primeiro capítulo estabeleceu o cenário para nossa exploração. Vimos como o infinito desafiou pensadores através dos séculos e como sua compreensão tornou-se essencial para a matemática moderna. No próximo capítulo, conheceremos Georg Cantor, o matemático que ousou explorar o infinito atual e descobriu verdades surpreendentes sobre diferentes tamanhos de infinito, abrindo caminho para um dos problemas mais fascinantes da matemática.
No final do século XIX, em São Petersburgo, nasceu Georg Ferdinand Ludwig Philipp Cantor, um matemático destinado a transformar nossa compreensão do infinito. Sua jornada intelectual, marcada por descobertas revolucionárias e controvérsias acaloradas, estabeleceu os fundamentos da teoria dos conjuntos moderna. Cantor não apenas provou que o infinito podia ser tratado matematicamente com rigor, mas descobriu algo ainda mais surpreendente: existem diferentes tamanhos de infinito, alguns maiores que outros. Esta descoberta abalou os alicerces da matemática e abriu portas para questões que permanecem entre as mais profundas da ciência.
Georg Cantor cresceu em uma família de músicos e comerciantes, desenvolvendo desde cedo um talento excepcional para matemática. Estudou em Berlim com alguns dos maiores matemáticos da época, incluindo Weierstrass e Kronecker. Ironicamente, Kronecker tornar-se-ia seu maior crítico, chamando-o de "corruptor da juventude" e suas ideias de "matemática degenerada". Mas Cantor perseverou, motivado por uma visão profunda sobre a natureza do infinito.
Em 1873, Cantor fez uma descoberta que mudaria a matemática para sempre. Ele provou que o conjunto dos números algébricos — raízes de equações polinomiais com coeficientes inteiros — é enumerável, ou seja, pode ser colocado em correspondência um-a-um com os números naturais. Isso já era surpreendente, pois os algébricos incluem todos os racionais e muitos irracionais como √2. Mas a verdadeira revolução veio quando ele provou que os números reais são não-enumeráveis — existem "mais" reais que naturais.
Richard Dedekind tornou-se confidente e colaborador intelectual de Cantor. Suas cartas revelam o desenvolvimento das ideias revolucionárias sobre o infinito. Em 1877, Cantor escreveu a Dedekind sobre uma descoberta que ele mesmo achou difícil de acreditar: existe uma correspondência um-a-um entre os pontos de uma linha e os pontos de um plano. "Eu vejo, mas não acredito!", escreveu Cantor, expressando seu espanto de que dimensões diferentes pudessem ter o mesmo número de pontos.
Entre 1874 e 1884, Cantor desenvolveu sistematicamente a teoria dos conjuntos. Ele introduziu conceitos fundamentais como conjunto, elemento, subconjunto, união e interseção. Mais importante, definiu rigorosamente o que significa dois conjuntos terem o mesmo "tamanho" (cardinalidade): quando existe uma correspondência um-a-um entre seus elementos. Esta definição funciona tanto para conjuntos finitos quanto infinitos, unificando o tratamento matemático de ambos.
Cantor não apenas provou que existem diferentes tamanhos de infinito — ele mostrou que existe uma hierarquia infinita deles. Para qualquer conjunto, seu conjunto potência (conjunto de todos os subconjuntos) tem cardinalidade estritamente maior. Assim, partindo dos naturais, obtemos uma sequência infinita de infinitos cada vez maiores: ℕ, 𝒫(ℕ), 𝒫(𝒫(ℕ)), e assim por diante. Cada nível é incomparavelmente maior que o anterior.
As ideias de Cantor encontraram forte resistência. Kronecker, seu antigo professor, liderou a oposição, considerando apenas objetos construíveis finitamente como matemática legítima. Henri Poincaré chamou a teoria dos conjuntos de "doença" da qual a matemática precisava se curar. Até mesmo teólogos se envolveram, debatendo se infinitos atuais invadiam o domínio divino. Cantor sofreu com as críticas, experimentando episódios de depressão, mas manteve sua convicção na verdade de suas descobertas.
David Hilbert, um dos maiores matemáticos do século XX, tornou-se o principal defensor de Cantor. Famosamente declarou: "Ninguém nos expulsará do paraíso que Cantor criou para nós." Hilbert reconheceu que a teoria dos conjuntos fornecia fundamentos sólidos para toda a matemática. Sob sua influência, as ideias de Cantor gradualmente ganharam aceitação, tornando-se parte essencial da matemática moderna.
Nos últimos anos de vida, Cantor continuou trabalhando em questões profundas sobre o infinito, incluindo a famosa Hipótese do Contínuo. Ele acreditava firmemente que não existia cardinalidade entre os naturais e os reais, mas não conseguiu prová-lo. Esta questão tornou-se uma obsessão, contribuindo para seus problemas de saúde mental. Cantor morreu em 1918, sem saber que sua hipótese tinha uma natureza muito mais profunda do que ele poderia imaginar.
Georg Cantor transformou o infinito de um conceito filosófico vago em um objeto matemático preciso e manipulável. Sua coragem intelectual em enfrentar o infinito atual, apesar da oposição feroz, abriu novos horizontes para a matemática. A teoria dos conjuntos que ele criou tornou-se a linguagem fundamental da matemática moderna. No próximo capítulo, exploraremos em detalhes o conceito revolucionário de cardinalidade e como diferentes infinitos podem ser comparados e classificados.
Quando contamos objetos no dia a dia — maçãs em uma cesta, pessoas em uma sala, estrelas visíveis no céu — estamos determinando a cardinalidade de conjuntos finitos. Mas como "contar" conjuntos infinitos? Como comparar seus tamanhos quando não podemos enumerar todos os seus elementos? A genialidade de Cantor foi perceber que não precisamos contar para comparar: basta estabelecer correspondências. Duas crianças podem descobrir se têm o mesmo número de balas sem saber contar — basta formar pares. Este princípio simples, quando aplicado ao infinito, revela uma estrutura matemática de beleza e complexidade surpreendentes.
Cardinalidade é a medida do "tamanho" de um conjunto, uma generalização da ideia de quantidade que funciona tanto para conjuntos finitos quanto infinitos. Dois conjuntos têm a mesma cardinalidade quando existe uma bijeção (correspondência um-a-um) entre eles. Para conjuntos finitos, isso coincide com ter o mesmo número de elementos. Para conjuntos infinitos, revela padrões surpreendentes: o conjunto dos números pares tem a mesma cardinalidade que todos os naturais, apesar de ser um subconjunto próprio.
Um conjunto é enumerável (ou contável) quando tem a mesma cardinalidade dos números naturais. Intuitivamente, seus elementos podem ser listados em uma sequência: primeiro, segundo, terceiro, e assim por diante. Surpreendentemente, muitos conjuntos infinitos são enumeráveis. Os inteiros podem ser ordenados como 0, 1, -1, 2, -2, 3, -3, ... Os racionais, apesar de serem densos (entre quaisquer dois existe outro), também são enumeráveis através de um arranjo diagonal engenhoso.
A descoberta de que os números racionais são enumeráveis é contra-intuitiva. Entre 0 e 1 existem infinitos racionais, entre 0 e 0,1 também, entre quaisquer dois racionais existem infinitos outros. Como podem ter a mesma quantidade que os naturais, que são discretos e espaçados? Cantor mostrou isso organizando os racionais em uma tabela bidimensional (numerador × denominador) e percorrendo-a em diagonais, pulando frações já contadas em forma reduzida.
A verdadeira revolução veio quando Cantor provou que nem todos os infinitos são enumeráveis. O conjunto dos números reais é não-enumerável — tem cardinalidade estritamente maior que os naturais. Isso significa que é impossível listar todos os reais em uma sequência, não importa quão engenhoso seja o método. Há fundamentalmente "mais" reais que naturais, um infinito maior que outro infinito.
Comparar cardinalidades nem sempre requer construir bijeções explícitas. O teorema de Cantor-Schröder-Bernstein afirma que se existem injeções de A em B e de B em A, então existe uma bijeção entre A e B. Isso simplifica muitas demonstrações: para provar que dois conjuntos têm mesma cardinalidade, basta mostrar que cada um pode ser mapeado injetivamente no outro.
Com cardinalidades definidas, podemos fazer aritmética com infinitos. Para cardinais infinitos, as operações têm propriedades surpreendentes. Se κ é um cardinal infinito, então κ + κ = κ e κ × κ = κ. Isso significa que o quadrado dos naturais tem a mesma cardinalidade que os naturais! Já a exponenciação sempre produz um cardinal maior: 2^κ > κ para qualquer cardinal κ, estabelecendo a hierarquia infinita de infinitos.
A cardinalidade dos números reais é chamada de cardinalidade do contínuo, denotada por 𝔠 ou 2^ℵ₀. O nome vem da interpretação geométrica dos reais como pontos em uma linha contínua. Cantor provou que 𝔠 = 2^ℵ₀ mostrando que os reais têm mesma cardinalidade que o conjunto de todas as sequências infinitas de 0s e 1s, que claramente tem cardinalidade 2^ℵ₀.
Para quaisquer dois conjuntos A e B, vale exatamente uma das três possibilidades: |A| < |B|, |A| = |B|, ou |A| > |B|. Isso pode parecer óbvio, mas a demonstração requer o Axioma da Escolha. Determinar qual caso ocorre pode ser extremamente difícil. Por exemplo, sabemos que |ℕ| < |ℝ|, mas existe alguma cardinalidade estritamente entre elas? Esta é precisamente a Hipótese do Contínuo.
A teoria da cardinalidade revela uma estrutura rica e surpreendente no mundo dos infinitos. Conjuntos que parecem drasticamente diferentes podem ter o mesmo tamanho, enquanto outros que parecem similares têm cardinalidades distintas. Esta teoria elegante não apenas resolve paradoxos antigos sobre o infinito, mas cria novos quebra-cabeças profundos. O maior deles, a questão de saber se existe uma cardinalidade entre os naturais e os reais, nos leva ao coração da Hipótese do Contínuo, que exploraremos no próximo capítulo.
Em 1878, Georg Cantor formulou uma conjectura que se tornaria um dos problemas mais célebres e intrigantes da matemática. Após provar que os números reais têm cardinalidade maior que os naturais, ele perguntou: existe algum conjunto cuja cardinalidade está estritamente entre ℵ₀ (cardinalidade dos naturais) e 2^ℵ₀ (cardinalidade dos reais)? Sua intuição dizia que não — que os reais representam o "próximo" infinito após os naturais. Esta conjectura, conhecida como Hipótese do Contínuo, desafiaria as mentes mais brilhantes por gerações e revolucionaria nossa compreensão sobre a natureza da verdade matemática.
A Hipótese do Contínuo (HC) afirma que não existe conjunto X tal que ℵ₀ < |X| < 2^ℵ₀. Em outras palavras, qualquer subconjunto infinito dos números reais ou é enumerável ou tem a mesma cardinalidade dos reais — não há meio-termo. Equivalentemente, HC afirma que 2^ℵ₀ = ℵ₁, onde ℵ₁ é o menor cardinal não-enumerável. Esta formulação conecta a aritmética de cardinais com a hierarquia dos alephs.
Cantor tinha várias razões para acreditar na Hipótese do Contínuo. Primeiro, apesar de extensas tentativas, ele nunca encontrou um conjunto com cardinalidade intermediária. Segundo, muitos conjuntos naturais que investigou eram ou enumeráveis ou tinham cardinalidade do contínuo — nada entre os dois. Terceiro, a HC parecia elegante e natural, sugerindo uma estrutura simples para os primeiros níveis de infinito.
Cantor dedicou anos tentando provar sua hipótese, desenvolvendo ferramentas poderosas no processo. Ele criou a teoria dos números ordinais, esperando que fornecesse o caminho para a prova. Explorou propriedades topológicas dos conjuntos de reais, buscando caracterizações que distinguissem conjuntos enumeráveis dos não-enumeráveis. Apesar de avanços significativos na teoria dos conjuntos, a HC permaneceu elusiva.
Cantor também formulou uma versão mais forte: a Hipótese Generalizada do Contínuo (HGC). Esta afirma que para qualquer cardinal infinito κ, não existe cardinal entre κ e 2^κ. Em termos de alephs: 2^ℵₐ = ℵₐ₊₁ para todo ordinal α. A HGC implica HC (caso α = 0) mas é substancialmente mais forte, fazendo afirmações sobre todos os níveis da hierarquia de infinitos.
Em 1900, no Congresso Internacional de Matemáticos em Paris, David Hilbert apresentou sua famosa lista de 23 problemas para o século XX. O primeiro da lista era a Hipótese do Contínuo. Hilbert considerava-a fundamental para o desenvolvimento da matemática, acreditando que sua resolução iluminaria a natureza do infinito e dos fundamentos matemáticos. Mal sabia ele que a resposta seria mais surpreendente que qualquer um poderia imaginar.
Se a HC fosse verdadeira, teríamos uma compreensão muito mais simples dos conjuntos de números reais. Muitas questões em análise e topologia teriam respostas diretas. Por exemplo, todo conjunto não-enumerável de reais conteria um subconjunto com cardinalidade do contínuo. Espaços de funções teriam estruturas mais previsíveis. A matemática seria, em certo sentido, mais "organizada".
Matemáticos buscaram intensamente conjuntos que pudessem ter cardinalidade intermediária. Conjuntos de medida zero? Não — podem ter qualquer cardinalidade até o contínuo. Conjuntos magros (primeira categoria)? Também não. Conjuntos definíveis de várias formas? Todos se mostraram ou enumeráveis ou com cardinalidade do contínuo. Esta ausência persistente de contra-exemplos fortaleceu a crença na HC.
Por décadas após Hilbert, os melhores matemáticos atacaram a HC. Alguns acreditavam que novos axiomas eram necessários. Outros buscavam uma demonstração puramente combinatória. Técnicas de forcing, grandes cardinais, axiomas de determinação — arsenal após arsenal foi desenvolvido. Cada avanço aprofundava a teoria dos conjuntos, mas a HC permanecia inatingível.
A Hipótese do Contínuo representa mais que um problema matemático — é uma janela para questões profundas sobre a natureza da matemática. Sua formulação simples esconde complexidade vertiginosa. Por mais de meio século, resistiu aos melhores esforços dos maiores matemáticos. A eventual "resolução" por Gödel e Cohen revelaria verdades surpreendentes sobre os limites do conhecimento matemático. Antes de explorar essa resolução revolucionária, precisamos entender melhor a hierarquia dos infinitos através dos números aleph, que examinaremos no próximo capítulo.
Para navegar no oceano dos infinitos, Cantor criou uma bússola matemática: os números aleph. Representados pela primeira letra do alfabeto hebraico, ℵ (aleph), estes números formam uma hierarquia completa e bem-ordenada de todos os cardinais infinitos. Como marcos em uma estrada infinita, eles nos permitem localizar e nomear cada tamanho possível de infinito. A elegância desta construção está em sua simplicidade estrutural combinada com sua profundidade conceitual — cada aleph representa um salto qualitativo no reino do infinito.
Quando Cantor descobriu múltiplos infinitos, precisou de uma forma sistemática de nomeá-los e ordená-los. Não bastava dizer "este infinito" ou "aquele infinito maior" — era necessário um sistema preciso de indexação. Os números aleph fornecem exatamente isso: uma enumeração completa de todos os cardinais infinitos, começando com ℵ₀ para os naturais e continuando através de toda a hierarquia transfinita.
ℵ₀ (aleph-zero) é a cardinalidade dos números naturais — o menor infinito possível. Todo conjunto infinito contém um subconjunto de cardinalidade ℵ₀. É o infinito mais familiar: o infinito da contagem, da enumeração, da sequência sem fim. Apesar de ser o menor infinito, ℵ₀ já exibe propriedades paradoxais: ℵ₀ + 1 = ℵ₀, ℵ₀ + ℵ₀ = ℵ₀, até mesmo ℵ₀ × ℵ₀ = ℵ₀.
ℵ₁ (aleph-um) é definido como o menor cardinal não-enumerável — o menor infinito maior que ℵ₀. Sua existência é garantida pelo teorema de Hartogs: para qualquer cardinal, existe um cardinal maior. Mas qual conjunto familiar tem cardinalidade ℵ₁? Aqui surge o mistério: a Hipótese do Contínuo é precisamente a afirmação de que 2^ℵ₀ = ℵ₁, ou seja, que os reais têm cardinalidade aleph-um.
Após ℵ₁ vem ℵ₂, o menor cardinal maior que ℵ₁. Depois ℵ₃, ℵ₄, e assim por diante. Mas a sequência não para nos índices finitos. Existe ℵω, o menor cardinal maior que todos os ℵₙ para n finito. Depois ℵω₊₁, ℵω₊₂, ..., ℵω·2, ..., ℵω². A hierarquia continua através de todos os ordinais, criando uma torre vertiginosa de infinitos cada vez maiores.
Os alephs se dividem em duas categorias. Cardinais sucessores têm a forma ℵₐ₊₁ — são o "próximo" cardinal após ℵₐ. Cardinais limite têm índice ordinal limite, como ℵω ou ℵω·2 — são supremos de sequências crescentes de cardinais menores. Esta distinção é crucial: cardinais sucessores têm cofinalidade regular, enquanto cardinais limite podem ter cofinalidade menor.
A aritmética dos alephs segue regras surpreendentes. Para alephs infinitos, adição e multiplicação são triviais: ℵₐ + ℵᵦ = ℵₐ × ℵᵦ = max(ℵₐ, ℵᵦ). Mas a exponenciação é complexa e profunda. Sabemos que 2^ℵₐ > ℵₐ sempre, mas determinar exatamente quanto maior é o problema da Hipótese Generalizada do Contínuo. Sem axiomas adicionais, não podemos determinar o valor de 2^ℵ₀ na hierarquia aleph.
A cofinalidade de um cardinal κ é o menor cardinal λ tal que κ pode ser expressa como união de λ conjuntos menores que κ. Cardinais regulares têm cofinalidade igual a si mesmos — não podem ser alcançados por uniões "pequenas". Todos os alephs sucessores são regulares. Cardinais singulares têm cofinalidade menor. Por exemplo, ℵω tem cofinalidade ℵ₀, pois é a união enumerável dos ℵₙ.
O maior mistério dos alephs é a exponenciação. Enquanto ℵₐ^ℵ₀ = max(ℵₐ, 2^ℵ₀) é determinado (assumindo apenas que sabemos 2^ℵ₀), valores como ℵω^ℵ₁ permanecem indeterminados sem axiomas adicionais. A função 2^ℵₐ cresce através dos alephs de forma que não podemos especificar sem assumir hipóteses como HGC. Esta indeterminação está no coração da independência da Hipótese do Contínuo.
Os números aleph fornecem a linguagem precisa para navegar no reino dos infinitos. Como coordenadas em um mapa infinito-dimensional, eles nos permitem localizar e comparar diferentes tamanhos de infinito. Mas a relação entre os alephs e a exponenciação cardinal — especialmente o valor de 2^ℵ₀ — permanece o grande mistério. Para entender por que este problema é tão difícil, precisamos examinar uma das ferramentas mais poderosas de Cantor: o argumento diagonal, tema do nosso próximo capítulo.
De todas as criações matemáticas de Cantor, o argumento diagonal destaca-se como uma obra-prima de elegância e poder. Com uma construção engenhosamente simples, ele demonstra verdades profundas sobre o infinito que desafiam nossa intuição. Como um mágico que revela o truque e ainda assim nos deixa maravilhados, o argumento diagonal mostra que, dada qualquer lista supostamente completa de números reais, podemos sempre construir um número que não está na lista. Esta técnica não apenas provou que os reais são não-enumeráveis, mas tornou-se uma ferramenta fundamental em lógica, computação e filosofia.
Imagine que alguém afirma ter listado todos os números reais entre 0 e 1. Cantor mostra como construir um número que certamente não está na lista. Olhamos para o primeiro número e escolhemos nossa primeira casa decimal diferente da dele. Para o segundo número, escolhemos nossa segunda casa decimal diferente. Continuando assim, construímos um número que difere do n-ésimo número da lista na n-ésima casa decimal. Logo, nosso número difere de todos na lista — uma contradição se a lista fosse completa.
Vamos ser precisos. Suponha que temos uma lista r₁, r₂, r₃, ... que supostamente contém todos os reais em [0,1]. Cada rᵢ tem expansão decimal 0.dᵢ₁dᵢ₂dᵢ₃... onde cada dᵢⱼ é um dígito. Construímos s = 0.s₁s₂s₃... onde sᵢ ≠ dᵢᵢ (evitando 0 e 9 para evitar ambiguidade com dízimas). Então s difere de r₁ no primeiro dígito, de r₂ no segundo, e assim por diante. Como s ∈ [0,1] mas s ≠ rᵢ para todo i, a lista não era completa.
O argumento diagonal não se limita aos reais. Cantor usou-o para provar que o conjunto potência sempre tem cardinalidade maior que o conjunto original. Dado conjunto A e função f: A → 𝒫(A), o conjunto diagonal D = {x ∈ A : x ∉ f(x)} não pode estar na imagem de f. Se D = f(d) para algum d, teríamos d ∈ D ↔ d ∉ f(d) = D, uma contradição. Logo, nenhuma função de A em 𝒫(A) é sobrejetora.
Alan Turing adaptou o argumento diagonal para provar a existência de problemas indecidíveis. O problema da parada — determinar se um programa para com entrada específica — é indecidível por diagonalização. Se existisse programa H que resolve o problema da parada, poderíamos construir programa D que consulta H sobre si mesmo e faz o oposto, criando contradição. Esta impossibilidade fundamental limita o que computadores podem fazer.
Bertrand Russell aplicou raciocínio diagonal para criar seu famoso paradoxo. Considere o conjunto R de todos os conjuntos que não contêm a si mesmos. R contém a si mesmo? Se sim, então por definição não deveria. Se não, então por definição deveria. Este paradoxo, essencialmente uma diagonalização, mostrou que a teoria ingênua dos conjuntos era inconsistente, forçando o desenvolvimento de axiomatizações mais cuidadosas.
Muitos matemáticos inicialmente resistiram ao argumento diagonal, considerando-o truque ou sofisma. Alguns argumentavam que a construção diagonal não produzia um número "legítimo". Outros questionavam o uso de expansões decimais infinitas. Mas tentativas de refutação sempre falhavam — o argumento é logicamente impecável. Com o tempo, sua validade e importância tornaram-se universalmente aceitas.
O argumento diagonal admite muitas variações. Podemos usar base binária em vez de decimal. Podemos diagonalizar sobre sequências, funções, ou estruturas mais complexas. Em cada contexto, a ideia central permanece: construir um objeto que sistematicamente difere de cada objeto em uma suposta enumeração completa. Esta flexibilidade torna o método amplamente aplicável.
O argumento diagonal tem profundas implicações filosóficas. Mostra que algumas totalidades não podem ser capturadas por enumeração — há sempre algo "fora". Sugere limitações fundamentais do conhecimento e da linguagem. Se tentamos descrever todos os números descritíveis, a própria descrição cria novos números. Esta auto-referência produtiva aparece em muitos contextos filosóficos e lógicos.
O argumento diagonal é mais que uma técnica de demonstração — é uma janela para verdades profundas sobre matemática, computação e os limites do conhecimento. Sua simplicidade esconde poder revolucionário: a capacidade de provar impossibilidades, estabelecer hierarquias, e revelar estruturas ocultas do infinito. Como veremos nos próximos capítulos, mesmo este poderoso método não foi suficiente para resolver a Hipótese do Contínuo. A resolução viria de direções inesperadas, através dos trabalhos revolucionários de Gödel e Cohen.
Kurt Gödel, um dos maiores lógicos de todos os tempos, entrou na história da matemática como o homem que provou que a matemática tem limites intrínsecos. Seus teoremas da incompletude abalaram os fundamentos da matemática em 1931. Mas em 1938, Gödel voltou sua atenção para a Hipótese do Contínuo, fazendo uma descoberta igualmente profunda: se a teoria dos conjuntos é consistente, então também é consistente com a Hipótese do Contínuo. Esta demonstração, usando o universo construtível L, foi o primeiro grande avanço no problema desde Cantor.
Kurt Gödel nasceu em 1906 no Império Austro-Húngaro. Estudante brilhante, frequentou o Círculo de Viena, onde discussões sobre fundamentos da matemática e filosofia moldaram seu pensamento. Aos 25 anos, publicou os teoremas da incompletude que revolucionaram a lógica. Sua abordagem combinava rigor técnico extremo com insights filosóficos profundos, características que aplicaria ao problema da Hipótese do Contínuo.
A grande inovação de Gödel foi criar um "universo" especial de conjuntos — o universo construtível L. Neste universo, todo conjunto é construído explicitamente a partir de conjuntos mais simples através de operações definíveis. L é construído em estágios hierárquicos: L₀ = ∅, L₁ = {∅}, e cada Lₐ₊₁ contém todos os subconjuntos de Lₐ definíveis em Lₐ. L é a união de todos estes estágios.
O universo construtível tem propriedades notáveis. Primeiro, satisfaz todos os axiomas de ZFC (Zermelo-Fraenkel com Escolha). Segundo, é o menor modelo interno transitivo de ZFC. Terceiro, em L vale o Axioma da Construtibilidade (V=L): todo conjunto é construtível. Mais importante para nossos propósitos: em L, a Hipótese Generalizada do Contínuo é verdadeira!
Gödel provou que se ZF é consistente, então ZFC + HGC é consistente. A estratégia: mostrar que L é modelo de ZFC + HGC. Se houvesse contradição em ZFC + HGC, ela apareceria em L. Mas L existe dentro de qualquer modelo de ZF, então uma contradição em L implicaria contradição em ZF. Como assumimos ZF consistente, ZFC + HGC também deve ser.
Em L, a Hipótese Generalizada do Contínuo vale por uma razão profunda: podemos contar explicitamente os subconjuntos construtíveis. Para cada cardinal κ em L, os subconjuntos construtíveis de κ aparecem em um nível Lₐ onde α tem cardinalidade próxima a κ. Como há poucas definições possíveis (relativamente), há poucos subconjuntos construtíveis. Especificamente, há apenas κ⁺ muitos, estabelecendo 2^κ = κ⁺.
O teorema de Gödel teve implicações profundas. Primeiro, mostrou que HC não pode ser refutada em ZFC — é consistente com os axiomas usuais. Segundo, estabeleceu que muitas consequências de HC são também consistentes. Terceiro, sugeriu que HC poderia ser indecidível em ZFC. Mas Gödel acreditava que HC era verdadeira e que novos axiomas eventualmente a provariam.
Apesar do sucesso, o método de Gödel tinha limitações. Ele provou consistência, não verdade. L é um universo "magro" — muitos conjuntos que esperaríamos existir não estão em L. Por exemplo, em L não existem cardinais mensuráveis ou outros grandes cardinais. Gödel sabia que L não capturava toda a riqueza da teoria dos conjuntos, mas fornecia um modelo mínimo importante.
Gödel era platonista — acreditava na existência objetiva de objetos matemáticos. Para ele, L era apenas uma parte do universo conjuntista real. Ele esperava que novos axiomas, especialmente sobre grandes cardinais, decidiriam HC. Em suas notas não publicadas, explorou várias direções, sempre buscando argumentos para a verdade (não apenas consistência) de HC.
O trabalho de Gödel sobre a Hipótese do Contínuo marcou um ponto de virada na matemática do século XX. Ele mostrou que HC não podia ser refutada pelos axiomas usuais, mas deixou aberta a possibilidade de que pudesse ser provada. Muitos matemáticos esperavam que HC fosse demonstrável em ZFC. Esta esperança seria destruída 25 anos depois por Paul Cohen, cujo método revolucionário de forcing mostraria que HC também não pode ser provada em ZFC. Esta descoberta surpreendente é o tema do nosso próximo capítulo.
Em 1963, um jovem matemático de Stanford fez uma descoberta que abalou os fundamentos da matemática. Paul Cohen, então com 29 anos, provou que a Hipótese do Contínuo não pode ser demonstrada a partir dos axiomas usuais da teoria dos conjuntos. Combinado com o resultado de Gödel, isso significava que HC é independente de ZFC — nem provável nem refutável. Para alcançar este resultado revolucionário, Cohen inventou o método de forcing, uma técnica que se tornaria uma das ferramentas mais poderosas da teoria dos conjuntos moderna.
Paul Cohen não era especialista em lógica ou teoria dos conjuntos quando decidiu atacar o problema da Hipótese do Contínuo. Formado em análise harmônica, ele tinha a audácia da juventude e a perspectiva fresca de um outsider. Muitos especialistas haviam tentado e falhado, mas Cohen abordou o problema com ideias radicalmente novas. Em apenas dois anos de trabalho intenso, ele criou o forcing e resolveu um dos problemas mais famosos da matemática.
O forcing é um método para construir novos modelos de teoria dos conjuntos estendendo modelos existentes. A ideia genial: começar com um modelo M de ZFC e adicionar cuidadosamente novos conjuntos para criar um modelo maior M[G] que ainda satisfaz ZFC mas tem propriedades diferentes. É como adicionar novos números aos reais mantendo suas propriedades algébricas — exceto que fazemos isso com o universo inteiro dos conjuntos.
Cohen mostrou como forçar a existência de muitos subconjuntos novos de ω (os naturais) sem adicionar novos ordinais. Começando com um modelo de ZFC, ele adicionou ℵ₂ muitos subconjuntos novos de ω, criando um modelo onde 2^ℵ₀ ≥ ℵ₂. Como ℵ₁ < ℵ₂ ≤ 2^ℵ₀, existe cardinalidade (ℵ₁) entre ℵ₀ e 2^ℵ₀, violando HC. O truque estava em adicionar estes conjuntos sem colapsar cardinais.
O forcing de Cohen usa funções parciais finitas como condições. Para adicionar um novo subconjunto de ω, condições são funções p: dom(p) → {0,1} onde dom(p) é subconjunto finito de ω. Uma condição p especifica finitos bits do novo conjunto. Condição q estende p se concorda com p onde p está definida. O filtro genérico G determina um conjunto completo: n está no novo conjunto se existe p ∈ G com p(n) = 1.
A parte mais difícil foi provar que M[G] ainda satisfaz todos os axiomas de ZFC. Cohen desenvolveu a técnica de "forcing relation" para isso. Para cada fórmula φ e condição p, definimos quando p força φ. Crucialmente, se G é genérico contendo p, então φ vale em M[G] se e somente se alguma condição em G força φ. Isso permite verificar axiomas trabalhando com condições em M, não no modelo estendido M[G] diretamente.
Após Cohen, o forcing explodiu em múltiplas direções. Pode-se forçar 2^ℵ₀ ser qualquer cardinal de cofinalidade não-enumerável. Pode-se violar AC (Axioma da Escolha). Pode-se criar modelos com propriedades combinatórias exóticas. O forcing tornou-se a ferramenta principal para provar independência em teoria dos conjuntos, com dezenas de variações: forcing iterado, proper forcing, forcing com grandes cardinais, e muitas outras.
A descoberta de Cohen causou choque e admiração. Gödel, inicialmente cético, rapidamente reconheceu a genialidade do método. Alguns matemáticos ficaram perturbados — se HC é indecidível, o que isso significa para a verdade matemática? Outros viram oportunidade — forcing abria novos mundos para explorar. O debate filosófico sobre o significado da independência continua até hoje.
Paul Cohen não apenas resolveu um problema centenário — ele transformou a teoria dos conjuntos em uma disciplina radicalmente diferente. Antes de Cohen, buscava-se verdade absoluta. Depois dele, exploramos um multiverso de modelos possíveis. O forcing revelou que muitas questões básicas sobre conjuntos infinitos não têm resposta única nos axiomas usuais. Esta descoberta forçou matemáticos a reconsiderar a natureza dos fundamentos matemáticos.
O trabalho de Cohen completou a história da Hipótese do Contínuo de uma forma que ninguém esperava. HC não é verdadeira nem falsa nos axiomas usuais — é independente. Este resultado profundo força-nos a repensar o que significa verdade em matemática. No próximo capítulo, exploraremos como diferentes escolhas de axiomas levam a diferentes universos matemáticos, cada um com sua própria resposta para a questão de Cantor.
A independência da Hipótese do Contínuo revelou uma verdade surpreendente sobre a matemática: os axiomas que escolhemos determinam quais verdades podemos provar. Como arquitetos escolhendo fundações, matemáticos devem decidir quais axiomas adotar, e estas escolhas levam a universos matemáticos dramaticamente diferentes. Alguns universos satisfazem HC, outros a violam. Alguns contêm cardinais gigantescos além da imaginação, outros são minimalistas. Esta multiplicidade de mundos possíveis transformou nossa compreensão sobre a natureza da verdade matemática.
Os axiomas de Zermelo-Fraenkel com Escolha (ZFC) formam a fundação padrão da matemática moderna. Desenvolvidos para evitar paradoxos como o de Russell, estes axiomas especificam quais conjuntos existem e como podem ser construídos. ZFC inclui axiomas básicos (extensionalidade, par, união), axiomas de construção (separação, substituição, conjunto potência), o axioma do infinito, e o controverso Axioma da Escolha.
Um modelo de ZFC é uma estrutura matemática que satisfaz todos os axiomas. Pelo teorema da incompletude de Gödel, ZFC (se consistente) tem muitos modelos diferentes, não-isomorfos entre si. Alguns são "magros" como L, outros "gordos" com muitos subconjuntos. Cada modelo tem sua própria aritmética cardinal, seus próprios conjuntos de reais, sua própria resposta para HC.
Axiomas de grandes cardinais postulam a existência de cardinais com propriedades extraordinárias de reflexão e transcendência. Cardinais inacessíveis são maiores que qualquer operação aplicada a cardinais menores. Cardinais mensuráveis admitem medidas não-triviais. Supercompactos, huge, e outros formam uma hierarquia vertiginosa. Estes axiomas têm consequências profundas mas não decidem HC — ela permanece independente mesmo com grandes cardinais.
O axioma V = L afirma que todo conjunto é construtível — o universo conjuntista coincide com L de Gödel. Este axioma decide muitas questões independentes: HC vale, existe boa-ordenação dos reais, todo conjunto projetivo é mensurável Lebesgue. Mas V = L é restritivo — nega grandes cardinais e muitos matemáticos o consideram falso. É útil para consistência mas limitante para exploração matemática.
Martin's Axiom (MA) e o Proper Forcing Axiom (PFA) são axiomas inspirados por forcing que têm consequências opostas a V = L. MA afirma que forcing com ordens ccc preserva propriedades. PFA é mais forte, aplicando-se a classes maiores de forcing. Sob MA, 2^ℵ₀ pode ser grande. PFA implica 2^ℵ₀ = ℵ₂, decidindo HC negativamente mas de forma diferente de V = L.
A visão multiverso abraça a pluralidade de universos conjuntistas. Em vez de buscar os axiomas "verdadeiros", exploramos diferentes axiomas e seus mundos resultantes. Cada escolha axiomática ilumina diferentes aspectos da matemática. HC é verdadeira em alguns universos, falsa em outros — ambas as possibilidades são matematicamente legítimas e interessantes.
Como escolher novos axiomas? Gödel propôs critérios: consequências verificáveis, poder explicativo, naturalidade intrínseca. Outros sugerem: maximização (universo o maior possível), reflexão (padrões locais valem globalmente), ou conveniência matemática. Não há consenso — diferentes matemáticos valorizam diferentes critérios, levando a programas axiomáticos diversos.
Hugh Woodin propôs um programa ambicioso para encontrar axiomas "ultimais" que decidiriam HC. Sua abordagem usa grandes cardinais e princípios de reflexão para argumentar que 2^ℵ₀ = ℵ₂. O axioma (*) de Woodin e variantes tentam capturar a "verdadeira" teoria dos conjuntos. Embora tecnicamente impressionante, o programa permanece controverso — nem todos concordam que existe uma resposta "correta" para HC.
A descoberta de que diferentes axiomas levam a diferentes matemáticas transformou nossa disciplina. Não estamos mais buscando simplesmente descobrir verdades pré-existentes, mas escolhendo quais verdades tornar reais através de nossas escolhas axiomáticas. A Hipótese do Contínuo, longe de ter uma resposta única, tornou-se um espelho refletindo a riqueza e complexidade dos fundamentos matemáticos. Esta situação levanta questões filosóficas profundas sobre a natureza da matemática, que exploraremos em nosso capítulo final.
A jornada da Hipótese do Contínuo, desde a conjectura de Cantor até a prova de independência de Cohen, transformou não apenas a matemática mas nossa compreensão filosófica sobre verdade, conhecimento e realidade matemática. O que significa uma proposição ser nem verdadeira nem falsa nos axiomas aceitos? Existe uma realidade matemática objetiva, ou a matemática é uma criação humana? A independência de HC força-nos a confrontar estas questões fundamentais que tocam a própria natureza do empreendimento humano e da realidade abstrata.
O debate entre platonismo e formalismo ganhou nova urgência com a independência de HC. Platonistas como Gödel acreditam que objetos matemáticos existem independentemente de nós — HC tem valor-verdade definido, apenas não conseguimos determiná-lo com os axiomas atuais. Formalistas veem a matemática como manipulação de símbolos — HC não tem valor-verdade absoluto, apenas relativo a sistemas axiomáticos. A independência parece favorecer o formalismo, mas platonistas argumentam que apenas precisamos de axiomas melhores.
Se HC é independente de ZFC, o que significa perguntar se é "verdadeira"? Uma visão é que verdade é relativa ao modelo — HC é verdadeira em L, falsa em modelos de forcing. Outra é que existe uma verdade absoluta que transcende nossa capacidade de prova. Uma terceira posição é que a questão está mal formulada — HC não é o tipo de proposição que tem valor-verdade determinado. Este debate revela tensões profundas sobre o conceito de verdade em matemática.
A independência de HC é manifestação do fenômeno mais geral da incompletude, descoberto por Gödel. Qualquer sistema axiomático suficientemente rico tem proposições indecidíveis. HC mostra que esta incompletude não é apenas curiosidade lógica — atinge questões centrais da matemática. Isso sugere limitações fundamentais do conhecimento matemático: sempre haverá verdades além do alcance de qualquer sistema formal fixo.
A história de HC ilustra a tensão entre intuição e rigor formal. Cantor intuiu que HC era verdadeira. Gödel compartilhava esta intuição. Mas o formalismo de Cohen mostrou que intuições podem ser enganosas — HC é formalmente indecidível. Isso levanta questões: devemos confiar em intuições matemáticas? Elas apontam para verdades profundas ou são apenas preconceitos psicológicos? Como equilibrar insight intuitivo com demonstração rigorosa?
A independência de HC sugere pluralismo matemático — não há uma matemática única, mas muitas matemáticas possíveis dependendo dos axiomas escolhidos. Alguns abraçam este pluralismo, celebrando a riqueza de universos matemáticos diversos. Outros buscam restaurar unicidade encontrando axiomas "corretos" que decidam HC. Este debate reflete questões profundas sobre objetividade e relativismo em matemática.
Como a independência de HC afeta matemáticos trabalhando? Para muitos, pouco muda — trabalham em ZFC e evitam questões indecidíveis. Outros exploram conscientemente diferentes axiomas, investigando como teoremas mudam. Alguns buscam resultados "absolutos" que valem em todos os modelos. A independência enriqueceu a matemática, abrindo novos campos de investigação, mas também complicou questões fundamentais.
HC revela complexidades profundas no conceito de infinito. Não apenas existem diferentes tamanhos de infinito, mas nem podemos determinar quantos tamanhos existem entre o enumerável e o contínuo! O infinito não é simplesmente "ilimitado" — é um reino com estrutura rica e misteriosa que desafia compreensão completa. A independência de HC sugere que o infinito sempre guardará segredos além do alcance formal.
A independência de HC abre mais questões do que responde. Existem axiomas naturais que decidem HC? Podemos encontrar evidência empírica relevante? Como escolher entre axiomas incompatíveis? Existe hierarquia de verdades matemáticas, algumas mais "reais" que outras? Estas questões continuam a desafiar matemáticos e filósofos, sugerindo que a história de HC está longe de terminar.
A Hipótese do Contínuo transformou-se de problema matemático em parábola filosófica sobre os limites do conhecimento. Mostra que mesmo em matemática — o domínio da certeza — existem questões fundamentais sem resposta definitiva. Isso não diminui a matemática; pelo contrário, revela sua profundidade e riqueza inesgotáveis. HC ensina humildade: há mais mistérios no mundo abstrato do que nossa filosofia pode sonhar.
A jornada através da Hipótese do Contínuo nos levou desde os primeiros vislumbres de Cantor sobre diferentes infinitos até as complexidades filosóficas da independência. Vimos como uma questão aparentemente simples — existe cardinalidade entre os naturais e os reais? — abriu abismos de profundidade matemática e filosófica. A HC permanece sem resposta definitiva não por falha nossa, mas porque toca os próprios limites do que pode ser conhecido através de métodos formais. Esta situação, longe de ser frustrante, é libertadora: mostra que a matemática permanecerá para sempre uma fonte de descoberta, surpresa e maravilha. O infinito guarda seus segredos, convidando cada geração a explorar seus mistérios com ferramentas e perspectivas renovadas.
A literatura sobre a Hipótese do Contínuo abrange mais de um século de desenvolvimento matemático, desde os trabalhos pioneiros de Cantor até as investigações contemporâneas sobre novos axiomas. Esta bibliografia oferece recursos essenciais para aprofundamento, incluindo textos históricos fundamentais, tratamentos técnicos modernos e discussões filosóficas sobre as implicações da independência.
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